terça-feira, 10 de junho de 2014

Acendo Um Cigarro


 “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
  O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
  A mão que afaga, é a mesma que apedreja”
 (Augustos dos Anjos – Versos Íntimos)

Acendo um cigarro
Pelas bocas de cem quilômetros
Sorriso couve entre dentes

Acendo um cigarro  
Pela gravata da morte
precipitada no pescoço jovem

Acendo um cigarro
Pelo obsceno atrás da porta
Vedada no humor-disciplina

Acendo um cigarro
Sobre a solidão degenerada
Sábios acenando abismos

Acendo um cigarro
Pela felicidade falecida
Sob tumores de pâncreas

Acendo um cigarro
Após a meia-noite
Suspirando alívios sem sol

Acendo um cigarro
Ao desespero dos cinqüenta
Afirmando egos de fumaça

Acendo um cigarro
Para o trovador inquieto
Na aurora do silêncio







quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Confissões de um Cretino


    "Vou-lhes dizer por que sou cretino. Sem respaldos científicos, simples como um segundo idioma. Sou cretino porque eu existo (apesar de afirmar avessos e inversos). Sou cretino dentro daquela argila confeccionada em fast foods acadêmicos. E então, meu espelho me tornou sábio. E os restolhos de humildade pariu um grande borrão fecal. Ai de meu trono! 
   Sou cretino, sou infante. Sou mastodonte! E na traseira solitária da noite, fantasio desejos com lagartos e tamanduás. Garotas são cruéis! Seios, pregos contra o dorso. Vaginas, lábios que gargalham incessantemente do ovo que me figura. Sou um selvagem nihilista. Tento acreditar...
   Além, uma força me orienta sobre cadáveres chacotados. Sou notável por excelência. E sou mais cretino. Rosno, rebolo e faço retórica com o umbigo. O mundo sorri para mim. Exceto entraves que exigem minha coragem. Ela é tão escassa. Engasgo antes do término do primeiro ato. Por que tanta seriedade?
    Enfim, sou cretino por natureza, por essência, por existência. Sem clemência! Um rei de coroa involuntária em berço semi-dourado. Nutrido com pêra e Ovomaltine, enquanto a língua serpenteia verbos parricídios. Ah, como sou sortudo! Ah, como sou cretino! Sou e não me questiono. Cretinos!"

                                                                                                         (Andros de Varal, Mar de Ilhas)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Quixote em Trancos

Quixote: No sonhar mundo
              Paradoxo do mundano
              Faço leito e serão...

Sancho: Por que seus pés não estão no chão?

Quixote: No abismo lúcido
              Suicidas em pranto
              Me esquivo em canção...

Sancho: Contudo, não conseguirá seu primeiro milhão!

Quixote: Abstrato de absinto
              Sonho ébrio, confesso
              Talvez na contra-mão...

Sancho: Está a vinte mil léguas da razão!

Quixote: Sobre tijolos dourados
              Cavalgo mitos e espectros
              Sangro, mas não em vão...

Sancho: Por que se comporta como um cão?

Quixote: Quão turvo és tu, Sancho
              Em seta, pobre eunuco
              talvez reto em sermão...

Sancho : ...

Quixote:  Em fugas de instantes
               Ego nu e sóbrio
               Faço aceno à negação...
               Porém, torto natural
               Fogo sobre fogo
               Elo de vida-paixão...
                   

Quixote e Sancho : E no findar além-brumas
                             Anfitrião entre curvas
                             Catártica solidão
             


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Vendetta Silenciosa do Inativo Infame


Portanto, o ar que se escondesse de suas narinas
Sopraria boas novas
E no cintilar das horas
Um brado animal
Atentem-se para a sentença
"faltam instantes para a descarga final".
Fogo em negro miocárdio
Cânticos do calabouço
Em acordes rápidos
Tão longe, tão perto
Tudo termina naquele ato
Poros soberbos, dourados
deliciam-se nos seios fartos
daquela que tudo reivindica
Amém-Gaia
Acolhe o bastardo




segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ego Bulbônico

Insustentável , pesado, cruz sobre entulhos
Uma parcela dança de olhos fechados
Outra, busca o inquisidor
Cômico não fosse castro
Caso demente, trágico
Porém firme , relutante
Talvez cansado
ruínas do instante
lembra ?
pregos verborrágicos
cuspes sinceros
morte ! Fato...
fastio...
...

Calo-me no funeral do humor...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Canção Doente



hora ardente canção
hora doente
um grito ecoa
pelo súbito silêncio
sobre feridas abertas
no calor ausente
verbos porta-cruz
farelos anímicos
que se espalham 
com versos de um ébrio
em queda livre
há anos luz 

nem novo nem velho
quimeras da meia-noite
transversal é o açoite
pois mudo é o querer

quão banal é o jogo
quão fatal é o fogo
dança desconcertada
poder sobre migalhas
migalhas de mim
migalhas de você
leito de facas !
me indique uma forca
por vez, eu 
lanço-te a fornalha 

fato destilado
dor forte e intensa
sentença no amanhecer
para esquerda, talvez
fugir no nublado
como corvos enfeitiçados
à espera do luar
redescobrindo a canção
fora da doença
e na escuridão renascer
um novo querer


domingo, 12 de dezembro de 2010

Descontrole

Sou súbito
Vulcão
Flamejante
Quem tem o controle?
O fogo dança em sua mais sombria veste
Sussurros n'alma
O rastro ...

O rastro de destruição completo
Cinzas, lágrimas tardias
Uma sombra, a última sentença:
"está condenado ao silêncio"
Sim, o silêncio...

Chega de guilhotinas
Chega de redenção
A noite muda me guiará
Espero que os mortos voltem a sorrir...