
A Lua toma seu posto . De princípio, hesito, mas deixo ser seduzido pelo seu encanto . Como um olho do Inferno, ela irradia minhas células, explodindo-as
em catarse. O cão emerge na alma, sedento pelo osso prometido, e num impulso febril, lanço-me na Embarcação Perdida, composta por mortos-vivos desengonçados que vomitam as entranhas de meia em meia hora . Pergunto para um deles onde estamos indo . Ele responde : “ Quem se importa” ? Na sequência, um aterrador silêncio impera a nau . Surgem densas brumas das profundezas do oceano, nos remetendo ao exílio dos sentidos . A vertigem é inevitável . Abraço o chão depois de uma eterna queda, e reparo que o destino dos meus companheiros é igual . Mas ao contrário de mim, eles sorriem, regozijam diante da realidade estilhaçada . Talvez, os ecos tenham razão, existe um velho de gravata dentro de mim ! Não consigo suportar tal situação . Com força inventada, arrasto-me em sentido ascendente. Lentamente, ergo as pálpebras e uma visão nocauteia meus olhos; estamos nos aproximando de um redemoinho ! Ainda lutando contra minha frágil carcaça, me jogo na escuridão marítima, tentando sobreviver a catástrofe . O que se sucede é um mistério ! Uma breve morte se instalou num obscuro intervalo de tempo, recobrando minha consciência numa praia qualquer . O Sol era o rei, já havia queimado a noite por inteira . De repente, patas selvagens cravam garras em meus braços, conduzindo-me para o Grande Leito . Ali, jazido, suspiro uma convicção : “Na próxima, usarei óculos escuro ao fitar a Lua” . Então me arrebata um sono de dois mil anos, durante as três noites...
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